Yayoi Kusama: quando a repetição se transforma em infinito

Uiara Azevedo 511 views No comments

Poucos elementos visuais se tornaram tão reconhecíveis na arte contemporânea quanto as bolinhas de Yayoi Kusama. Presentes em pinturas, esculturas, objetos e instalações, elas se multiplicam até quase apagar aquilo que existe por baixo. Em sua obra, porém, a repetição está longe de ser apenas decorativa: é uma maneira de investigar infinito, percepção, identidade e desaparecimento.

Nascida no Japão em 1929, Kusama começou a desenhar ainda criança. Em 1957, mudou-se para os Estados Unidos e, no ano seguinte, chegou a Nova York, onde encontrou uma cena artística em intensa transformação. É nesse período que desenvolve as primeiras pinturas da série Infinity Nets, construídas a partir de milhares de pequenas marcas repetidas. A superfície deixa de ter um ponto central e parece continuar para além dos limites da própria tela.

Yayoi Kusama. Anos 60. Imagem: Stedelijk Museum

Nos anos 1960, essa pesquisa se expande para esculturas, performances e instalações. Nos Infinity Mirror Rooms, os espelhos multiplicam luzes, objetos e o próprio corpo do visitante. A ideia de infinito deixa de estar representada apenas na superfície da obra e passa a ser vivenciada dentro dela. Ao entrar nesses espaços, o espectador se vê repetido inúmeras vezes, tornando-se simultaneamente presente e quase anônimo.

A repetição também atravessou outros campos. Em 2012, Kusama iniciou uma colaboração com a Louis Vuitton, levando seus pontos, cores e padrões para bolsas, acessórios e objetos da Maison. A parceria aproximou ainda mais sua produção do universo da moda e do design e foi retomada em 2023, em uma nova coleção.

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No Brasil, a obra de Kusama encontrou no Instituto Inhotim um espaço particularmente significativo. Além de Narcissus Garden, o instituto abriga uma galeria permanente dedicada à artista, reunindo outras duas instalações. Apresentada pela primeira vez em 1966, Narcissus Garden é formada por 750 esferas de aço inoxidável que criam uma superfície em constante transformação. Céu, vegetação, arquitetura e os próprios visitantes se refletem e se fragmentam, fazendo da paisagem um campo instável de imagens e dissolvendo continuamente os limites entre indivíduo e espaço.

Narcissus Garden Inhotim (2009) de Yayoi Kusama. Imagem: Inhotim

Ao longo de mais de sete décadas, Kusama construiu um repertório próprio a partir de pontos, redes, espelhos, abóboras, flores e superfícies infinitamente repetidas. O que parece simples à primeira vista revela uma pesquisa contínua sobre a percepção e os limites entre o indivíduo e o espaço que o cerca.

Sua produção também ultrapassou as fronteiras da arte contemporânea para alcançar a moda, a literatura, o cinema e a cultura popular, sem deixar de preservar a coerência de uma investigação iniciada ainda nos primeiros anos de sua carreira.

Yayoi Kusama morreu em agosto de 2026, aos 97 anos, em Tóquio. Até o fim da vida, permaneceu produzindo a partir do mesmo universo que construiu ao longo de décadas. Seu legado está justamente nessa capacidade de transformar elementos aparentemente simples em experiências de escala quase ilimitada — fazendo da repetição não um ponto de chegada, mas uma maneira de continuar procurando o infinito.

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