Rubem Valentim: geometria, identidade e liberdade
Em 1962, Rubem Valentim vivia um momento decisivo de sua trajetória. Sua participação na 31ª Bienal de Veneza levou sua produção a um dos principais encontros internacionais de arte, enquanto prêmios e exposições no Brasil ampliavam o reconhecimento de sua pesquisa. Naquele mesmo ano, recebeu a medalha de ouro no Salão Paulista de Arte Moderna e o prêmio de viagem ao exterior no Salão Nacional de Arte Moderna. A exposição individual apresentada na Galeria Relevo, no Rio de Janeiro, também foi eleita a melhor do ano pela crítica. Pouco depois, em 1963, o artista partiria para Roma, onde viveria até 1966.
É desse período que data Composição 20, obra que integra o próximo Leilão Blombô em Porto Alegre, em parceria com a Bolsa de Arte. A pintura reúne elementos de uma linguagem que Valentim vinha desenvolvendo desde o final dos anos 1950: formas geométricas, cores intensas e uma organização rigorosa do espaço. Círculos, triângulos, linhas e outros elementos sintéticos não são apenas recursos formais. Em sua produção, essas estruturas se relacionam a símbolos e emblemas de matriz africana, especialmente aqueles ligados às tradições religiosas afro-brasileiras.
Nascido em Salvador, em 1922, Valentim cresceu em contato com manifestações populares e com a cultura dos terreiros de candomblé. Essas referências não aparecem em sua obra como ilustrações de rituais, mas como parte de um vocabulário visual próprio, construído ao longo de décadas. Ao articular símbolos afro-brasileiros à abstração geométrica, o artista criou uma linguagem que dialogava com as correntes modernas sem se submeter a modelos europeus. A geometria, em seu trabalho, tornou-se um meio de elaborar uma experiência cultural e histórica específica.
Rubem Valentim. Foto: Bel Pedrosa, 1989
Em 1976, Valentim reuniu parte de suas ideias no Manifesto ainda que tardio. Ao escrever que “a geometria é um meio” e que buscava “uma ordem sensível, contida, estruturada”, o artista esclarecia que seu interesse pela organização formal não se limitava à composição. A ordem que procurava nas formas convivia com a inquietação e a emoção, e a arte assumia uma dimensão ética e política: um exercício de liberdade diante das forças repressivas. A geometria não era um fim em si mesma, mas uma ferramenta para transformar referências culturais em linguagem plástica.
Vista a partir desse pensamento, Composição 20 permite reconhecer como a pesquisa de Valentim articula estrutura e significado. A precisão das formas não elimina a dimensão simbólica; é justamente por meio dela que o artista constrói uma obra ligada à memória, à identidade e à pluralidade da cultura brasileira. O ano de 1962 marca, assim, não apenas uma sequência de reconhecimentos institucionais, mas um momento de afirmação de uma linguagem que continuaria a se desenvolver ao longo de sua trajetória.
