Iberê Camargo e a pergunta: “Tem rio?”
Quando criança, Iberê Camargo viveu entre diferentes cidades do Rio Grande do Sul, acompanhando as transferências do pai, funcionário da viação férrea. A cada mudança, havia uma pergunta que fazia à mãe, Doralice: “Mãe, tem rio?” A presença ou ausência de um rio parecia ser, para o menino, uma maneira de medir a paisagem e também a própria ideia de pertencimento.
Pintura de Iberê Camargo tendo rio como tema.
O rio continuaria presente quando Iberê se tornou artista. Em Porto Alegre, para onde se mudou ainda jovem e onde voltaria a viver definitivamente nos últimos anos, o Guaíba entrou em sua pintura e em seus desenhos. Também aparecem em sua produção lugares como a Cidade Baixa, a Rua da Margem e o Arroio Dilúvio, paisagens que registram uma cidade em transformação.
Essa relação ganhou uma espécie de continuidade inesperada depois de sua morte. A atual sede da Fundação Iberê Camargo foi construída às margens do Guaíba, em Porto Alegre, a partir de um projeto do arquiteto português Álvaro Siza. Inaugurado em 2008, o edifício foi pensado em diálogo com o terreno e com a paisagem, incorporando o rio à própria experiência de quem percorre o espaço.
A história parece voltar ao ponto de partida: da pergunta feita por uma criança — “tem rio?” — ao edifício que guarda sua obra diante do Guaíba, o rio atravessa a trajetória de Iberê como uma presença que nunca deixou de retornar.
A Blombô desembarca em Porto Alegre para seu próximo leilão, que acontece nos dias 21 e 22 de outubro, com Iberê Camargo entre os destaques.
