Robert Mapplethorpe: os primeiros anos de uma linguagem

Uiara Azevedo 431 views No comments

Antes de se tornarem artistas reconhecidos, Patti Smith e Robert Mapplethorpe eram dois jovens tentando encontrar seu lugar em Nova York. É desse período, anterior à fama e às obras que os tornariam conhecidos, que Patti Smith parte em Just Kids, livro de memórias publicado em 2010.

Os dois se conheceram em 1967. Patti havia chegado à cidade com o desejo de ser artista e poeta; Robert estudava arte e experimentava diferentes possibilidades. O encontro acontece antes de qualquer definição profissional. Eles ainda estavam descobrindo quem seriam.

Fotografia de Robert Mapplethorpe e Patti Smith, feita em Coney Island, em 1969, para a capa do livro Just Kids, publicado no Brasil como Só Garotos.

Just Kids acompanha esse momento de formação e mostra uma relação que ultrapassa o romance. Patti e Robert dividiam pouco dinheiro, pequenos quartos, trabalhos ocasionais e, principalmente, a convicção de que a arte deveria ocupar um lugar central em suas vidas.

Robert ainda não era o fotógrafo que conhecemos. Sua produção passava pelo desenho, pela pintura, pela colagem e pela experimentação com diferentes materiais. A fotografia surgiria aos poucos, primeiro relacionada às suas colagens e, depois, como uma possibilidade de linguagem própria. Em 1970, com uma câmera Polaroid, ele começa a desenvolver uma prática que ganharia cada vez mais importância.

Patti acompanha esse processo de perto. Ela também estava construindo seu próprio caminho, entre a poesia, o desenho e a performance. Os dois se observavam, trocavam ideias e acompanhavam o trabalho um do outro. Não era uma parceria artística convencional, mas existia entre eles uma forma de cumplicidade fundamental: a presença de alguém que acredita naquilo que você ainda está tentando fazer existir.

A partir de 1969, o Hotel Chelsea passa a fazer parte dessa história. O endereço reunia artistas, escritores e músicos e colocava os dois em contato ainda mais próximo com a cena cultural de Nova York. Mas, antes de estarem inseridos nesse universo, havia o cotidiano de quem ainda precisava descobrir como viver de arte.

Eles frequentavam exposições, livrarias, clubes e os lugares onde circulavam artistas. Robert desenhava e fazia colagens; Patti escrevia. Gastavam o pouco que tinham com livros, materiais e experiências que alimentavam seus trabalhos. A cidade funcionava como um campo de descobertas, mas o mais importante estava acontecendo entre eles: cada um começava a reconhecer no outro uma vocação.

A relação também se transformou. O romance dos primeiros anos deu lugar a uma amizade profunda, que permaneceu mesmo quando os caminhos profissionais e afetivos dos dois seguiram direções diferentes. Patti tornou-se poeta, performer e, depois, uma das figuras fundamentais do rock; Robert encontrou na fotografia o meio para desenvolver sua pesquisa artística.

É nesse ponto que Just Kids se torna especialmente interessante para pensar Mapplethorpe: o livro mostra o artista antes da obra conhecida.

Antes das fotografias de corpos, flores e retratos que definiriam sua produção, havia um jovem experimentando materiais, colecionando referências e procurando uma linguagem. Nada estava pronto. A fotografia ainda era uma descoberta, e sua identidade como artista estava sendo construída no contato com outras pessoas, com a cidade e com as experiências daquele período.

Patti Smith escreve a história muitos anos depois, mas escolhe retornar justamente a esse momento em que o futuro ainda estava aberto. Robert era Robert, Patti ainda estava se tornando Patti, e os dois tinham pouco além de suas ambições e da disposição para levá-las adiante.

O que permanece em Just Kids é essa imagem de dois artistas no início de suas trajetórias, quando criar ainda não significava carreira, reconhecimento ou mercado. Era uma escolha de vida.

Duas fotografias que evidenciam o interesse de Robert Mapplethorpe pelo corpo integram o leilão Visões do Século XX – Coleção Internacional, da Blombô. Os trabalhos fazem parte do conjunto de obras selecionadas para o pregão e podem ser conferidos no catálogo disponível na plataforma.

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