O Sonho de Dom Bosco: o afresco de Alfredo Volpi para o Palácio Itamaraty
Quando Alfredo Volpi recebeu a encomenda para realizar um mural destinado ao recém-inaugurado Palácio Itamaraty, o desafio ia além da criação de uma obra monumental. Era preciso conceber uma pintura capaz de integrar-se à arquitetura de Oscar Niemeyer e traduzir, por meio de sua própria linguagem, um dos símbolos associados ao nascimento de Brasília: a visão profética de Dom Bosco. O resultado foi O Sonho de Dom Bosco, afresco concluído em 1966 que reúne arte, arquitetura e história em uma das mais significativas realizações da integração das artes no modernismo brasileiro.
A
obra faz referência ao sonho relatado por Dom Bosco em 1883, no qual o
sacerdote italiano descreveu uma vasta região situada entre os paralelos 15º e
20º da América do Sul, destinada ao surgimento de uma grande civilização.
Décadas depois, essa narrativa passou a ser associada à fundação de Brasília,
tornando-se um dos símbolos da nova capital.
“O Sonho de Dom Bosco”, pintado por Alfredo Volpi, no Palácio Itamaraty. Fonte: Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna.
Volpi,
no entanto, afasta-se de uma representação literal. Em vez de ilustrar a
profecia, transforma-a em uma construção plástica marcada pela síntese formal.
No centro da composição, Dom Bosco surge de braços abertos, enquanto a cidade é
sugerida por pequenas formas geométricas organizadas em um ritmo preciso. As
cores, os planos e a economia de elementos reafirmam a linguagem que consagrou
o artista e fazem da obra um exemplo notável de sua maturidade.
Um
dos aspectos mais fascinantes do afresco é seu diálogo com a arquitetura. Os
grandes arcos da composição ecoam as arcadas do Palácio Itamaraty, fazendo com
que pintura e edifício pareçam concebidos em conjunto. Essa integração entre
diferentes linguagens artísticas foi um dos princípios que orientaram a
construção de Brasília e encontra, na obra de Volpi, uma de suas expressões
mais bem-sucedidas.
Volpi pintando o painel
de Dom Bosco no Palácio Itamaraty. Crédito: German Lorca/Metrópoles.
Mais de cinquenta anos
após sua execução, O Sonho de
Dom Bosco permanece como um marco da integração entre pintura,
arquitetura e história, reafirmando o papel de Alfredo Volpi na construção do
imaginário visual de Brasília.
No próximo leilão da Blombô, em Belo Horizonte, será apresentado este raro estudo preparatório para o afresco Dom Bosco, uma obra de excepcional importância para a compreensão do processo criativo de Alfredo Volpi. Mais do que anteceder a execução do mural, o estudo documenta a construção de uma das composições mais emblemáticas da arte moderna brasileira, tornando-se um testemunho singular de sua pesquisa formal e cromática..

