O Sonho de Dom Bosco: o afresco de Alfredo Volpi para o Palácio Itamaraty

Uiara Azevedo 629 views No comments

Quando Alfredo Volpi recebeu a encomenda para realizar um mural destinado ao recém-inaugurado Palácio Itamaraty, o desafio ia além da criação de uma obra monumental. Era preciso conceber uma pintura capaz de integrar-se à arquitetura de Oscar Niemeyer e traduzir, por meio de sua própria linguagem, um dos símbolos associados ao nascimento de Brasília: a visão profética de Dom Bosco. O resultado foi O Sonho de Dom Bosco, afresco concluído em 1966 que reúne arte, arquitetura e história em uma das mais significativas realizações da integração das artes no modernismo brasileiro.

A obra faz referência ao sonho relatado por Dom Bosco em 1883, no qual o sacerdote italiano descreveu uma vasta região situada entre os paralelos 15º e 20º da América do Sul, destinada ao surgimento de uma grande civilização. Décadas depois, essa narrativa passou a ser associada à fundação de Brasília, tornando-se um dos símbolos da nova capital.

“O Sonho de Dom Bosco”, pintado por Alfredo Volpi, no Palácio Itamaraty. Fonte: Instituto Alfredo Volpi de Arte Moderna.

Volpi, no entanto, afasta-se de uma representação literal. Em vez de ilustrar a profecia, transforma-a em uma construção plástica marcada pela síntese formal. No centro da composição, Dom Bosco surge de braços abertos, enquanto a cidade é sugerida por pequenas formas geométricas organizadas em um ritmo preciso. As cores, os planos e a economia de elementos reafirmam a linguagem que consagrou o artista e fazem da obra um exemplo notável de sua maturidade.

Um dos aspectos mais fascinantes do afresco é seu diálogo com a arquitetura. Os grandes arcos da composição ecoam as arcadas do Palácio Itamaraty, fazendo com que pintura e edifício pareçam concebidos em conjunto. Essa integração entre diferentes linguagens artísticas foi um dos princípios que orientaram a construção de Brasília e encontra, na obra de Volpi, uma de suas expressões mais bem-sucedidas.

Antes da execução do mural, Alfredo Volpi realizou um estudo preparatório em pequena escala. A pintura revela a elaboração cuidadosa da composição, a pesquisa cromática e o equilíbrio entre forma e espaço que caracterizam seu processo criativo. Mais do que um simples esboço, a obra possui autonomia plástica e permite acompanhar a construção de uma das realizações mais importantes da arte pública brasileira.

Volpi pintando o painel de Dom Bosco no Palácio Itamaraty. Crédito: German Lorca/Metrópoles.

Mais de cinquenta anos após sua execução, O Sonho de Dom Bosco permanece como um marco da integração entre pintura, arquitetura e história, reafirmando o papel de Alfredo Volpi na construção do imaginário visual de Brasília.

No próximo leilão da Blombô, em Belo Horizonte, será apresentado este raro estudo preparatório para o afresco Dom Bosco, uma obra de excepcional importância para a compreensão do processo criativo de Alfredo Volpi. Mais do que anteceder a execução do mural, o estudo documenta a construção de uma das composições mais emblemáticas da arte moderna brasileira, tornando-se um testemunho singular de sua pesquisa formal e cromática..

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